desabafo
bom, então íamos pra Bolívia amanhã. digo íamos porque espero que isso aconteça, que fiquemos aqui e pronto. não há condições nem necessidade de se meter numa guerra! afinal quem somos nós? eu penso muito na minha condição de atriz, muito mesmo. sou caxias, responsável, sofro se tenho que perder um ensaio, quase louca sou eu. mas nunca fui uma atriz que dá tudo de si. me desculpem os bicho-grilos, mas acho um saco esse papo todo de deuses, de orgias, de sementinha. acho um saco isso de que somos especiais, escolhidos, que temos uma missão. claro que temos, lógico até, mas os médicos também tem, os ambientalistas, os corretores, as prostitutas, os garis, os cientistas, os astronautas, os pedreiros, os dedetizadores, as cozinheiras... somos mais sensíveis que muita gente, claro. mais dramáticos também e não sei até onde isso é bom. mas não temos nada de mais maravilhoso do que os outros, somos tão necessários quanto, e só pensando assim eu consigo me ver com respeito. quero que entendam que essa é minha profissão. muito séria e que amo. então, li hoje o blog do Rodolfo, que já tá em Santa Cruz de La Sierra, dizendo que a situação está mesmo alarmante e não sei se vamos mais fazer Vestido de Noiva lá. vamos continuar ensaiando e esperar até sexta pra ver o que acontece... já decorei o texto em espanhol, acho que pode ser uma experiência linda e vou ficar triste por não ir, mas não vou morrer por isso. sei que o Rodolfo vai tomar a decisão certa, é preciso esperar. eu já fiz peça ardendo em febre, duas peças até, tomando injeção pra aguentar a dor, hoje não faria isso nunca! sou só uma atriz e me supero muito, mas quero viver, quero ter filho, quero ter paz. e a arte não está acima da vida, não está mesmo.
Escrito por Cléo De Páris às 15h03
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the end
bem, terminamos nossa temporada de Vestido de Noiva no Centro Cultural. foi lindo, lindo até não poder mais. muita gente viu, muita gente quis ver, muita gente não viu... teatro é assim, efêmero. mas fica na memória. agora, a aventura é na Bolívia! viajo na quinta com o Ivam, porque vamos dar entrevistas. apresentaremos no sábado e no domingo em Santa Cruz de La Sierra. hoje, os vestidos da Alaíde estão no sol, os pincéis de maquiagem foram lavados e o texto em espanhol vai entrando na minha cabeça e acabando com meus nervos! nada fácil, mas quem disse que seria? vejam como ficaram algumas falas (e olha que escolhi as mais fáceis!):
Alaíde - Estou sorrindo sem vontade. Nenhuma. Vou com você nem sei porque. Sou assim. vamos, meu amor? Alaíde - Estoy sonriendo, sin ganas. Ninguna. Voy con usted ni sé pro qué. Soy así. vamos, mi amor?
Alaíde - E quem é que tem pudor quando gosta? Alaíde - Y quien tiene pudor cuando ama?
Alaíde (com afeto) Assim estraga minha pintura. E além disso... (Alaíde indica a mulher de véu) Alaíde (con afecto) Así me arruinas el maquillage. Y además...(Alaíde indica a la mujer del velo)
Alaíde (irônica) Assim mesmo você gosta dele! Alaíde(irónica) Así mismo, te encanta el tipo!
Alaíde - eu queria ter amado um menino. O seu tinha 17 anos? Devia ser muito branco. Alaíde - me gustaría amar a un muchacho. El tuyo tenía 17 años? Debia ser muy blanco.
 
 
 fotos de Fábio Penna, todas feitas da coxia!
Escrito por Cléo De Páris às 15h11
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tive sono de nada, de não ser atingida, isso foi bom. é porque não dói. tão bom quando não dói! estou agora não atingida por nada. parece um chá com bolachas. não ser atingida por nada é como a bolacha maizena molhada no chá de camomila. é um derretido de não desaparecer, de derreter só. não é um sorvete nem uma gelatina. isso é derretimento de não ser atingida por nada no sono e no acordado. gostoso não ser atingida no sono. não ser atingida pelo que não existe, pelo que não desiste, não ser atingida pelo silêncio, nem pelo silêncio. não ser atingida no sono é também como ler Camões. não, é como ouvir alguém ler Camões. não, não, é como ser adolescente e ouvir alguém ler Camões!
Escrito por Cléo De Páris às 18h51
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