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Pueril
 


nunca mais dou entrevista pra jornal,

eu pensei quando saí do aeroporto com a sacolinha da banca na mão e um leve cansaço
da humanidade. é que estou chateada. uma revista de um grande jornal me procurou pra
uma entrevista com outras atrizes. foi tudo um caos e eu já tinha um mau pressentimento...
só não imaginei que fossem sair coisas absurdas que não falei. chato demais. eu nunca diria, por
exemplo, que os atores de tv não tem crise! pelo amor de Deus! acho que todo mundo está
sujeito a crises! atores são atores e não importa o veículo. pedreiros tem crise, assassinos tem
crise, garçonetes tem crise, crianças tem crise. eu nunca diria que alguém está imune a qualquer
crise
, eu jamais diria: "Às vezes, penso que essa crise é específica dos atores de teatro, que
quem faz televisão está imune." essa frase meio absurda saiu hoje nessa revista e creditada a 
mim! mas ainda é pior do que isso, bem pior. porque tem depois um exemplo que eles colocam, de
uma coisa que eu até contei, mas não como exemplo de uma coisa que não disse e nem do jeito que
está lá. porém... como não sei onde tudo foi deturpado, não me atrevo a culpar ninguém. nem a
perder a elegância. sei que essa revista vai ser esquecida no próximo exemplar. soube também que é
uma revista sem muito respeito. e sei que preciso ouvir minha intuição e deveria ter saído daquela
palhaçada bem rápido. mas preciso dizer também que: as pessoas que nos entrevistaram tem de mim
a maior admiração e que não sei o que aconteceu. a partir de hoje, só quero ser entrevistada pra rádio
ou tv ou nem quero ser entrevistada mais! ou então, preciso aprender a ter chilique na hora da entrevista.
isso eu vi que funciona! o caso é que gostaria de continuar do jeito que eu sou. não quero ser estrela
(até porque não sou!), não quero me considerar importante demais. não quero ser a fina.
sou só uma atriz. e só quero ter respeito.

e pra acabar (que esse assunto já me encheu o saco) uma das frases que mais gosto de falar, em Liz:
"os artistas tem que ser tratados como o que são: servos" 



Escrito por Cléo De Páris às 21h42
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com hora pra acabar

"a gente se fala" eles disseram juntos. riram. mas era um pouco assim: ela não sabia se ia querer, depois poderia até
descobrir que sim; ele sabia muito que queria, depois poderia até descobrir que não.
“a gente se fala”, eles disseram milimetricamente juntos e parecia que tinham ensaiado! parecia que tinham ficado uns...
uns 3 anos ensaiando todos os dias, pra ser tão natural assim... parecia que nesses 3 anos, eles tinham se dedicado a
esse momento, pra ser tão natural assim... talvez tivessem falado na frente de todos os espelhos que viram em 3 anos
“a gente se fala”, até achar a intenção exata. sim, porque a frase é sem graça e seria, se eles não tivessem esquecido de
tudo mais que existia no mundo, por exatos 2 segundos. Se alguém tivesse visto a cena, não acreditaria que foi um
improviso; se estivessem em um filme, o diretor gritaria: “corta! valeu!” e a equipe aplaudiria. Todos os momentos de suas
atrapalhadas vidas poderiam ter sido adiados, eles pensaram
juntos, mas esse não. adiada estava a felicidade. pra amanhã.
também a saudade de um lugar que ele não tinha ido, as brigas, o parque
de diversões! as músicas, as viagens... quando
ele finalmente poderia ficar olhando pra ela nua, emoldurada pela janela com vento nos cabelos e o mar ao fundo. 
Ela ainda inclinou o corpo e deu tchau pra um vidro escuro. nem viu o carro sair. viu um vazio onde
poderia se jogar pra
sempre. desejou alvejar a alma, colocar de molho, esfregar bem, pendurar no varal e esperar o dia seguinte. ele ia comprar
uma pedra.
ela pensou que, um dia, comeria bolo mármore na linda varanda dele, como amiga. não importava adiar isso
também. nos planos dele, ela abria as cortinas às 9 da manhã. vestia apenas um penhoar branco transparente com
aquelas pluminhas na manga, olhava com ar de mistério e, caso chorasse, choraria mel. ele nunca esqueceria seu cheiro,
ele a traria para seu mundo,
mesmo que a roubasse. isso estava em seus planos. Mas nos planos dela não havia nada ainda,
só poesia. nos planos dela, ele ainda era nebuloso,
envolto em páginas de
ilusão. nos planos dela, os amores
precisavam de antibióticos cada vez mais fortes.
Na noite anterior, ele tinha feito uma proposta. ele disse que ela era linda na ficção, mas queria fazer um convite, ele a
convidou pra realidade,
aí, no som entrou Vinícius: “se você quer ser minha namorada...” riram.
Na noite anterior tinham combinado uma coisa bonita: não chorar mais! ele levou remédios na cama com uma fita roxa.
ela sorriu tanto que até era bonita. olhos inchados não importaram. e no silêncio veio Vinícius:
“se você quer ser minha namorada...” riram. e só. choraram e riram pra compensar 3 anos. dançaram na sala
Carpenters, close to you. dançaram por 3 anos, sussurraram por 3 anos. e só. foi por isso que ela saiu.
pegou o cristal japonês e quis escrever um bilhete que dizia assim:
"adorei a sua festa temática! príncipes e princesas. faltaram as dúzias de rosas vermelhas. faltou também
arrependimento. mas tem coisas que não fazem falta quando faltam. acho que não preciso ajudar a arrumar a
bagunça.
 se precisar, me chame, mas por favor, entre mais devagar, sonhe mais devagar. porque eu queria
te ver um dia e, em algum lugar do seu mundo, deve existir
você. mas um dia pode ser tarde e receio que
estejamos cansados de finais.
a gente se fala”.



Escrito por Cléo De Páris às 01h20
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a música mais linda do mundo nessa semana

nessa semana não tem música. a música mais linda do mundo nessa semana
é o silêncio.



Escrito por Cléo De Páris às 19h39
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"ALÉM DO HORIZONTE"

estive em Monte Alegre do Sul até hoje. começamos as gravações de "Além do Horizonte", minissérie em 4
capítulos da TV Cultura e Os Satyros. o texto lindo é de Ivam Cabral, a direção, de Rodolfo García Vazquez.
minha personagem se chama Solidão. voltei feliz que só! ainda tem mais. o elenco é grande!

quem é quem:

HAROLDO COSTA FERRARI, Esperantino | IRENE STEFANIA, Tristeza | CLÉO DE PÁRIS, Solidão | MARTA BAIÃO,
Dona Desejos | BÁRBARA BRUNO, Dona Esperança | LAVÍNIA PANNUNZIO, Bromélia | SILVANAH SANTOS, Presália|
PHEDRA D. CÓRDOBA, Maroca | MARIA EUGÊNIA DE DOMÊNICO, Violácea | BRIGIDA MENEGATTI,Meneda |
BETO BELLINI, Virtuoso | BETE DORGAN, Gogolina | DANILO GRANGHEIA, Pirolino | ANDRESSA CABRAL, Lila |
FABIO PENNA, Balão | JULIA BOBROW, Espoleta |
GERMANO PEREIRA, Bernardo | GUSTAVO FERREIRA, Lourenço|
PATRÍCIA SANTOS, Solaia | CAROLINA ANGRISANI, Greta | RUY ANDRADE, Padre Navegante | ANTONIO CAMPOS,
Graçalino |
SAMIRA LOCHTER, Lota | EVELYN LIGOCKI, Martela.

  
                                                               Solidão e Maroca (Phedra d. Córdoba)

        
                           Solidão com Ivam Cabral, seu criador...



Escrito por Cléo De Páris às 23h46
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depois do ensaio das 9:30 da manhã... em casa sozinha. ´
se não tivesse tantos guarda-chuvas, comprava um hoje. pensei.
também pensei que ela estava certa quando disse que uma das virtudes
dos príncipes encantados é saber esperar. e ele também estava certo
quando disse que não existem níveis seguros pra existir. nem pra atender o
telefone!
aqui eu olho a chuva, sinto saudades do vento, faço comida gostosa, leio,
vejo a super nany, acendo velas, penso demais. não é que eu esteja a fim da
casa, é que não estou a fim da rua. esses tempos me desligam e não tenho
controle nem mesmo remoto. seria preciso contar os abismos, juntar todos numa
garrafa e jogá-los ao mar. aí então, claro, claro que se poderia abrir a janela com
explendor, miles davis ao fundo, tragadas charmosas no cigarro, sorriso de beldade.
mas o problema é que não existem níveis seguros. não, não existem.



Escrito por Cléo De Páris às 00h56
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