desamparo II
ela começou a guardar tudo no lugar errado. não achava mais as contas. esqueceu as senhas. dias e noites revirando tudo, procurando o sono, a paz, o desejo. corria pra janela, acendia as luzes, rezou até. achou com muito esforço uma historinha do passado junto com os sapatos, achou um sorriso embaixo da cama. achou um pouco de saudade dentro do freezer, atrás da lazanha de legumes. na caixinha de remédios só tinha remédios. na estante, tudo igual. junto com as canetas encontrou um pouco de tempo perdido. enrolada nos fios do telefone, alguma ilusão. por sorte, achou um pouco de fome do lado do abajour, quando acendeu, viu que estava lá! depois que se cansou, pensou assim, bem assim: vou ficar parada aqui por algum tempo, se quiserem, as coisas que me achem. sou mais fácil de não tentar me esconder. se me guardarem no lugar errado, volto correndo pra cá, fico parada bem atenta e se quiserem que me achem. se quiserem.

Escrito por Cléo De Páris às 00h21
[]
[envie esta mensagem]

desamparo I
não conseguia achar os pedaços da árvore de natal. a base. os ramos estavam todos, mas não adiantava, ela não ia parar em pé. tinha chutado tudo que podia, cortou o pé com um pedaço de caixa de cd. tão frágeis e bestas, quebram à toa. com chutes de ódio também. tinha pisado forte nas bolinhas azuis, as últimas da loja, a moça simpática tinha falado... as últimas. agora nem existiam mais. sentiu um pouco de dor, mais pelas bolas azuis do que pelo cortezinho que sangrava. mais pela sua falta de habilidade com a vida do que pela vida. não teria mesmo onde colocar a árvore, pensou num desabafo! não tinha onde colocar os sonhos que se iam correndo, então que fossem! melhor assim. essa noite eu não durmo, ela falou baixinho segurando o coração com força nas mãos trêmulas. na noite anterior, aquele pesadelo outra vez. corria, entrava no elevador e seus cabelos eram muito azuis, de um azul igual aos olhos amedrontados. só isso. mas era um tormento sem querer. o pior vinha depois. corria, mas não conseguia muito porque tinha uma pilha imensa de malas e em cima de tudo, um caixãozinho com uma máscara dentro. essa noite eu não durmo mesmo, disse mordendo o lábio. ligou o rádio. ah! graças a Deus, uma valsinha! ficaria até o amanhecer ouvindo essa valsinha. mas por que não tenho mais gravador? porque acabaram com os toca fitas tão úteis quando se quer guardar uma valsinha pra se salvar da dor? por que as coisas mudam tanto? e por que eu não acompanho? já sei! vou colocar aquele tamanco que tanto gosto... porque me lembra eu quando não era eu ainda, com poucos anos. e porque usar tamanco tira o sono. porque caminhar fazendo barulho espanta o mal, engana o mal. eu sempre sei o que me faz pensar em outra coisa, mas não faço. eu sei que as memórias são inadministráveis e eu sei que se você reviver uma coisa que aconteceu nas 12 horas subsequentes, você não esquece dela nunca mais. por isso o amor atormenta. por isso o ódio também. são as horas mágicas. não sou eu que digo, a ciência diz. me diz. minha ciência só sabe colocar tamancos pra caminhar a noite inteira pra enganar a dor. enganar de mansinho, porque a velha do apartamento de baixo precisa dormir. senão ela acorda e abre mil vezes o guarda roupa que range e ele atiça a dor. ela disse isso. depois dormiu. porque, mesmo que tentasse, não conseguiria chorar.
Escrito por Cléo De Páris às 02h26
[]
[envie esta mensagem]


 ouvindo antony and the johnsons. I am a bird now
Escrito por Cléo De Páris às 02h08
[]
[envie esta mensagem]

a música mais linda do mundo nessa semana
Me Deixe Mudo
Walter Franco
Não me pergunte Não me responda Não me procure E não se esconda Não diga nada Saiba de tudo Fique calada Me deixe mudo Seja num canto Seja num centro Fique por fora Fique por dentro Seja o avesso Seja a metade Se for começo Fique à vontade
Escrito por Cléo De Páris às 00h38
[]
[envie esta mensagem]

um pouco de doçura para este blog

Escrito por Cléo De Páris às 21h34
[]
[envie esta mensagem]

|